Dissertação - Mariana Oliveira Santos

Violência no trabalho contra profissionais de enfermagem em hospital universitário público brasileiro: estudo de método misto sob a perspectiva de vítimas e testemunhas

Autor: Mariana Oliveira Santos (Currículo Lattes)

Resumo

A violência no trabalho da enfermagem tem apresentado crescimento expressivo nos últimos anos, configurando-se como um grave problema de saúde pública. Esse fenômeno produz impactos significativos na saúde física e mental dos trabalhadores, nas condições de trabalho e na qualidade da assistência prestada. Nesse contexto, esta pesquisa tem como objetivo geral: Analisar a violência no trabalho sofrida ou testemunhada por profissionais de enfermagem em um hospital universitário. Trata-se de um estudo de métodos mistos, com design explanatório sequencial, realizado em um hospital universitário. A etapa quantitativa, de caráter exploratório e descritivo, ocorreu entre fevereiro e junho de 2023, com 287 profissionais de enfermagem por meio da aplicação do Questionário de Avaliação da Violência no Trabalho Sofrida ou Testemunhada por Trabalhadores de Enfermagem. Os dados foram analisados no software Statistical Package for the Social Sciences, versão 22.0, utilizando estatística descritiva e testes de associação (qui-quadrado e teste exato de Fisher), adotando-se nível de significância de 5% (p < 0,05). A etapa qualitativa foi realizada entre fevereiro e abril de 2024, com 28 profissionais e residentes de enfermagem, por meio de entrevistas individuais semiestruturadas. Os dados qualitativos foram processados no software IRaMuTeQ e analisados por meio da Análise Textual Discursiva, sendo posteriormente integrados aos achados quantitativos. O abuso verbal constituiu a forma de violência mais frequente, relatada por 39,4% dos profissionais, seguido pela violência física (9,1%) e pelo assédio sexual (4,5%). Observou-se associação estatisticamente significativa entre a categoria profissional e a ocorrência de violência física (p = 0,020) e abuso verbal (p = 0,016), evidenciando maior exposição entre técnicos de enfermagem. Verificou-se, ainda, associação entre o turno noturno e a ocorrência de violência física (p = 0,041). No que se refere aos perpetradores, os pacientes foram os principais responsáveis pelos episódios de violência física (42,3%) e de assédio sexual (30,8%). Em contrapartida, no abuso verbal, predominou a violência praticada por colegas de trabalho da mesma unidade (40,7%), indicando a presença de violência horizontal no ambiente laboral. Destaca-se que a maioria dos episódios não foi formalmente notificada, não resultou em consequências para os agressores e tampouco gerou apoio institucional às vítimas, evidenciando fragilidades nos mecanismos de enfrentamento e manejo da violência no contexto hospitalar. A etapa qualitativa evidenciou vivências recorrentes de violência, subnotificação, sofrimento emocional, sentimentos de medo, ansiedade, raiva, tristeza e impotência, além da percepção de desamparo institucional. Violências identitárias, como racismo, homofobia e xenofobia, emergiram de forma expressiva nos relatos qualitativos. Nesse contexto, a violência ocupacional na enfermagem mostrou-se frequente, multifacetada e marcada pela subnotificação, impunidade e fragilidade das respostas institucionais, com impactos relevantes na saúde mental, no trabalho e na qualidade da assistência. A integração dos métodos permitiu ampliar a compreensão do fenômeno, evidenciando a necessidade de estratégias institucionais efetivas de prevenção, incentivo à notificação, proteção aos trabalhadores e fortalecimento das políticas de saúde do trabalhador no contexto hospitalar.

Palavras-chave: Violência no trabalhoEnfermagemSaúde ocupacionalHospitais