Mulheres em processo de interrupção do ciclo de violência pelo parceiro íntimo: enfrentamento no contexto individual e social
Autor: Ariana Sofia Barradas da Silva (Currículo Lattes)
Resumo
Interromper o ciclo de violência por parceiro íntimo é uma decisão complexa para a mulher, pois envolve aspectos individuais, familiares e de seu contexto, incluindo os meios que dispõe e o acesso à rede de enfrentamento da violência. A tomada de decisão nem sempre é compreendida e acolhida pelas pessoas no seu entorno e tampouco amparadas adequadamente no momento que precisa. Este estudo tem por objetivo geral: compreender o processo de interrupção do ciclo de violência vivenciado por mulheres vítimas de violência pelo parceiro íntimo. E como objetivos específicos: identificar as motivações e repercussões da tomada de decisão da mulher para interromper o ciclo de violência pelo parceiro íntimo; mapear as barreiras que, de acordo com as mulheres vítimas de violência pelo parceiro íntimo, dificultaram/dificultam interromper o ciclo da violência; e descrever as etapas que, de acordo com a mulher em situação de violência pelo parceiro íntimo, se sucederam desde sua tomada de decisão de interromper o ciclo da violência. Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, desenvolvido com a participação de 15 mulheres em situação de violência, sendo quatro recrutadas a partir de um serviço especializado em atendimento à mulher e onze referenciadas por profissionais das áreas da saúde e da educação, que já atuaram na rede de enfrentamento da violência contra mulher. Os dados foram coletados no período de outubro de 2024 a janeiro de 2025, por meio de entrevistas semiestruturadas e após submetidos a análise temática. Os resultados colocam em evidência que a interrupção do ciclo de violência não se constitui em uma decisão imediata, que depende apenas da vontade da vítima, mas como um processo, gradual e demarcado por caraterísticas individuais e contextuais da mulher. Esse processo é motivado pelo aumento da gravidade da violência, que representa uma ameaça à integridade física e a segurança da mulher, dos filhos e de outros membros da família, atingindo um limite que se torna insuportável, que somado ao suporte emocional e/ou prático de amigos, familiares e serviços especializados atuam como catalizadores na ruptura, resultando em alívio ou liberdade. Entretanto, as participantes também vivenciaram o medo, culpa, insegurança econômica e sofrimento emocional. Nesse processo, obstáculos interligados impediu as mulheres de decidir pela interrupção, assim como sustentar a decisão e mantê-la a longo prazo, dentre esses, a dependência econômica, a ausência ou fragilidade das redes de apoio, a normalização da violência desde fases precoces da vida, o medo de represálias, a pressão social e religiosa para manutenção da relação, bem como limitações no acesso e na efetividade dos serviços de proteção. Desde a tomada de decisão para interromper o ciclo da violência, os resultados apontaram para um percurso não linear, composto por fases que se sobrepõem e se reorganizam ao longo do tempo, com base em condicionantes como o número de filhos, o nível socioeconômico, e o suporte familiar e da rede de proteção. Em suma, interromper o ciclo de violência pelo parceiro íntimo é um processo que exige não apenas coragem individual, mas também condições sociais, econômicas e institucionais favoráveis. Os resultados apontam para a necessidade de políticas públicas integradas, intersetoriais e sensíveis às especificidades de cada mulher, considerando particularidades que caracterizam o contexto de vida das mulheres e de suas relações.