Tese - Kateline Simone Gomes Fonseca

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Estudo das trajetórias de jovens adultos que testemunharam a violência entre os pais na infância

Autor: Kateline Simone Gomes Fonseca (Currículo Lattes)

Resumo

Testemunhar violência entre os pais durante a infância é uma experiência adversa que impacta profundamente no desenvolvimento biopsicossocial dos filhos, gerando consequências imediatas e de longo prazo em sua saúde física, emocional e relacional. Apesar da gravidade desse fenômeno, este ainda não está adequadamente reconhecido como uma forma específica de vitimização, sendo pouco contemplado nas práticas profissionais dos serviços de saúde e assistência social. Esta tese de doutoramento teve como objetivo geral: compreender as influências que incidem sobre a trajetória de vida de jovens adultos que na infância foram testemunhas da violência entre seus pais. Especificamente objetivou: 1) Examinar como jovens adultos constroem discursivamente sua trajetória de vida a partir da experiência de testemunhar violência entre seus pais; 2) Analisar os repertórios interpretativos mobilizados por jovens adultos para dar sentido às repercussões da experiência de testemunhar a violência entre os pais em sua vida adulta; 3) Identificar principais momentos discursivos nas narrativas de jovens adultos, que na infância testemunharam a violência entre os pais, os quais sinalizam rupturas, pontos de inflexão e estratégias de resiliência; 4) Analisar as posições identitárias adotadas por jovens adultos que testemunharam violência entre os pais na infância, considerando a influência de contextos de apoio e adversidade em suas trajetórias de vida. O estudo está ancorado em uma perspectiva teórica que inclui de forma complementar a Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano e o conceito de resiliência. Trata-se de um estudo qualitativo, do tipo exploratório e descritivo, realizado em Rio Grande/RS, junto a 10 participantes com idade entre 18 e 29 anos. Após o recrutamento, foram realizadas entrevistas semiestruturadas, gravadas em áudio, transcritas na íntegra e submetidas à análise de discurso. O estudo seguiu as diretrizes éticas da Resolução 510/2016. Resultados: o discurso dos participantes mostra que suas trajetórias vitais foram construídas de forma singular, tentando não reproduzir as experiências vivenciadas na infância, embora nem sempre tenham conseguido. Os repertórios interpretativos utilizados para dar sentido às repercussões na vida adulta, de ter testemunhado a violência entre os pais na infância incluem: patologizar a experiência adversa vivenciada; narrativa compensatória visando dar aos outros a proteção e o cuidado que não teve para si; autodesqualificar-se, principalmente no campo profissional; romper vínculos com os genitores e/ou inverter os papeis na família de origem; contenção emocional nas relações íntimas para evitar reviver o sofrimento experenciado na família de origem; (não)reprodução da violência nas relações posteriores. Os momentos discursivos que sinalizavam rupturas revelam acúmulo de adversidades. Os pontos de inflexão que ajudaram a redirecionar as trajetórias ocorreram por meio de mudanças como a saída de casa, a entrada na universidade e por interações não violentas com outras pessoas, enquanto as estratégias de resiliência foram: enfraquecimento/apagamento das lembranças da infância; expressão das emoções por meios verbais e artísticos; buscar apoio e motivação em figuras/modelos representativos de positividade; autoconsciência da (não)reprodução dos modelos familiares da infância. Por fim, as posições identitárias adotadas incluíram: vítima negligenciada; autorresponsabilização pela violência entre os pais; sobrevivente sustentado por rede extrafamiliar; e sobrevivente ancorado em figuras familiares significativas. Concluiu-se que é fundamental identificar e intervir precocemente nas testemunhas de violência entre os pais na infância para reduzir os impactos da experiência e contribuir para a ruptura dos ciclos intergeracionais de violência. As práticas profissionais na saúde, assistência social e justiça necessitam mapear os recursos protetivos, fortalecendo redes de apoio e promovendo a regulação emocional e o redirecionamento da trajetória. Assim, comprova-se a tese de que as interações vivenciadas nos diferentes contextos moldaram a trajetória desses jovens adultos, permitindo-lhes responder às demandas da vida adulta de forma satisfatória.

Resumo da tese

Palavras-chave: JovensViolência na famíliaTrajetória de vidaResiliência (Psicologia)Infância